Perdi-me no tempo desta história, ainda por contar.
Os rostos que me eram tão familiares acomodaram-se nos cantos da memória.
Os retratos que fiz da minha vida desbotaram com a chuva e o pincel recusou-se à minha vontade. Pintou sozinho uma linha escura e fina.
Fiquei estática e sem reacção enquanto vi a minha vida ser pintada por aquilo que afinal era um pedaço de mim. Talvez uma alma deambulante que brotou da minha e ganhou vontade própria. Uma revolta de mim mesma.
Permaneço na sombra para te ver chegar. Para que não vejas os calos nas minhas mãos, nem deixes o teu sorriso escapar.
Acompanho todos os teus passos, todos os triunfos, todas as mágoas.
Vives sozinho numa caixa de papel que criaste para alojar o teu corpo fraco e só.
Chove lá dentro no Inverno e no Verão, de noite, o calor é de tal modo insuportável, que sobes aos telhados para te arrefeceres no luar.
E pensar que este tempo todo vivi contigo, separada por uma linha ténue que tu traçaste para mim.
Só porque as minhas palavras não mentem.
Só porque o meu coração bate apressado, em busca de um outro olhar distante.
Há um futuro que se aproxima, e um suspiro que se prende no meu peito, como uma ave sem asas para voar.
E perante os desígnios da natureza, o comum mortal sobrevive à loucura, mascarando-se com a vida.




