Há um fio que me prende os pés.
Não consigo andar.
O respirar é limitado à urgência de sobreviver, para te encontrar.
Há intenções que já não descortino. Apagaram-se-me os trilhos para percorrer tudo de novo.
O eu que existia dissipou-se numa cortina de medo e desilusão.
A esperança pintou-se em força, não fosse eu perder-te em qualquer esquina não percorrida, nu qualquer olhar não correspondido.
Mas tranco-me na necessidade de não ver tudo de frente, de ter sempre uma cortina que apenas deixa passar a marca do teu vulto. A necessidade de sonhar com o que está para vir. Porque no meio das quedas, das feridas, das lágrimas, o que sobra são aqueles 5 segundos em que tive a liberdade de sonhar e te ter para mim.
Queres trazer de volta um passado que já não tem retorno. Queres escavar sentimentos que seriam deliciosamente guardados em recordação. Queres mexer naquilo que o tempo já apagou.
A minha mente não está sóbria.
Chove lá fora. Chove cá dentro também.
Cá dentro, onde se prendem os sonhos e o gosto de verão. O sol ardente. A nossa paixão.
Há uma ideia que se repete.
Há um título que se esconde no meio destas palavras. Um sentimento dominante que varre o som e apaga as letras.
Qualquer coisa de ti no espaço que me rodeia. Um qualquer cheiro intenso, selvagem, perdido.
Um simpósio. Uma festa sem convidados. Apenas eu e um copo de vinho, brilhante. Um corpo de linhas divinas, redondas, perfeitas.
Um trago de sangue, de vida, de horizonte.
O encontro que nunca foi marcado.
As palavras que nunca te disse.
Os beijos que se perderam.
Os sonhos, que não saíram do papel.




